16 de outubro de 2013

Elysium

Idem, EUA, 2013. Direção: Neil Blomkamp. Roteiro: Neil Blomkamp. Elenco: Matt Damon, Alice Braga, Jodie Foster, Sharlto Copley, Diego Luna, William Fichtner, Brandon Auret, Josh Blacker, Emma Tremblay, Jose Pablo Cantillo, Adrien Holmes, Jared Keeso, Faran Tahir e Wagner Moura. Duração: 109 min.

Depois de sua estreia promissora no comando de Distrito 9, Neil Blomkamp já provou que sabe criar universos caóticos, politicamente divisórios e quase primitivos. Com um agravante, achar que isso é o bastante e não ter o mesmo preciosismo técnico para suas tramas ou até mesmo para a sua direção – destacando que é um excelente argumentista, mas um realizador bastante falho.

Escrito pelo próprio Blomkamp, a história gira em torno de uma divisão de classes que ocorre em 2159. O mundo está segregado entre ricos e pobres: os ricos vivem em uma espécie de estação espacial chamada Elysium, onde as pessoas não morrem ou ficam velhas por possuir um tratamento tecnológico diferenciado; os pobres, por outro lado, continuam numa devastada Terra, onde há um grupo de rebeldes – comandado por Spider (Moura) – que tentam fugir do sistema criado pelo governo e para a tão sonhada Elysium.

Oferecendo imediatamente uma visão crítica social óbvia, com os ricos em cima e os pobres sendo deixados para viver abaixo deles, ressaltando uma própria oligarquia econômica, Blomkamp não é nada sutil em retratar cada uma de suas esferas – assim, desenvolvendo personagens irritantemente unilaterais. Max, por exemplo, “nasceu para algo único” e, portanto, está fadado a ser o salvador dos pobres: aquele que acabará com as linhas separatórias entre as duas classes. Delacourt é uma totalitária cruel que mata quem quer que esteja tentando chegar ao seu lugar longe da civilização. Nada é por acaso na narrativa, o que confronta diretamente a tentativa de soar um prenunciador natural do que está por vir – roubos, poluição e a tecnologia que nos fará refém. Até mesmo a identificação feita do governo com seus trabalhadores ganha ares de regime antissemita. Por outro lado, o roteiro tem decisões acertadíssimas, como aquela em que o Governo, evitando ao máximo o contato popular, chega ao seu limite, denunciando o seu tratamento com a classe mais baixa: você só é importante enquanto está vivo. Assim, a forma como um robô se dirige a Max, agradecendo o seu serviço e que é para ele tomar sua dose de comprimidos para mantê-lo vivo e trabalhando até a sua morte, é chocante.

Mas se Blomkamp é interessante no mundo desordenado que cria, com os próprios humanos se matando, acaba sendo bastante frustrante em como cria as suas sequências de ação. É comum, por exemplo, dezenas de cortes por minuto, o que torna tudo indecifrável. Além disso, pode-se citar o travelling incompreensível feito com rapidez durante uma luta entre Max e Kruger, que só serve como um exercício bobinho de estilo. E se o diretor surge perdido na direção, ele também acaba sendo conivente com os erros que nascem no terceiro ato. Aparentemente sem saber como lidar com o final de sua trama, Blomkamp chega a colocar o vilão de seu filme com o objetivo de conquistar o mundo, algo que, imediatamente, deveria ser banido do cinema. Ao mesmo tempo, passa a criar uma série de coincidências narrativas que desembarcarão no clímax final e diálogos tão amadores que deixariam Michael Bay orgulhoso – aliás, há de se aplaudir a seriedade com a qual Damon parece sentir uma história tão estúpida quanto a do hipopótamo.

E se Damon parece no controle automático e Alice Braga interpreta a mesma personagem de sempre, Sharlto Copley acaba roubando a cena ao criar alguém extremamente repugnante e temível nos dois primeiros atos – algo que é só ofuscado pelo destino que o roteiro experimenta para ele. Por outro lado, mesmo em um instante reprovável, avalie como ao se olhar no espelho, com uma aparência muito mais humana do que o normal, ele próprio não se reconhece. Ao passo que Wagner Moura é competente ao demonstrar a instabilidade de Spider e ao usar o humor para esconder seus maiores temores.

Ao fim, acaba sendo uma pena que Neil Blomkamp ainda não tenha encontrado a mesma excelência por trás das câmeras. Num ano medíocre para o sci-fi, Elysium vira mais uma obra de potencial deteriorada pelos esforços de seus realizadores que tentam criar algo que justifique o uso de seu orçamento. 


                               

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